Tempo e clima

A primavera de 2026 no Brasil começa com o Índice Niño 3.4 em 1,8°C acima da média, e a NOAA estima 75% de chance de o El Niño ser o mais forte desde 1950

O Índice Niño 3.4 chegou a 1,8°C acima da média em 10 de setembro de 2026, e a NOAA estima 75% de chance de o El Niño ser o mais forte desde 1950, com mais de 90% de chance de um evento muito forte na primavera, números reproduzidos pelo Inmet.

Capa do terceiro boletim do Painel El Niño 2026-2027, do INPE, que acompanha o episódio apontado como possível El Niño mais forte desde 1950

Capa do terceiro boletim mensal do Painel El Niño 2026-2027, de agosto de 2026, publicado pelo INPE em parceria com o Inmet e outros órgãos. Imagem: Divulgação/INPE. Capa recortada em 16:9.

Atualização em 29 de setembro: a Defesa Civil de Santa Catarina e a Epagri/Ciram passaram a tratar o El Niño como de intensidade muito forte. A anomalia da temperatura do mar no Pacífico chegou a 2,2 °C na última semana, acima do limiar de 2 °C da categoria.

O Índice Niño 3.4, o principal termômetro do fenômeno no oceano Pacífico, chegou a 1,8°C acima da média em 10 de setembro de 2026, patamar que caracteriza um El Niño forte às vésperas da primavera no Brasil.

O dado consta do boletim de 10 de setembro divulgado pelo Instituto Nacional de Meteorologia, que acompanha a evolução do fenômeno desde janeiro, quando o Brasil ainda estava sob La Niña.

A primavera de 2026 já começa sob alerta. O Índice Niño 3.4 subiu a 1,8°C acima da média em 10 de setembro, e a NOAA estima 75% de chance de o El Niño ser o mais forte desde 1950. Para setembro a novembro, a agência vê mais de 90% de chance de um evento muito forte.

O Índice Niño 3.4 saiu de 0,7°C em junho para 1,8°C em setembro de 2026

O Inmet declarou o El Niño oficialmente em 11 de junho de 2026, quando o índice marcava 0,7°C acima da média. Um mês depois, em 9 de julho, a leitura já indicava 1,2°C, faixa classificada como intensidade moderada.

Leia também: o critério do Inmet para onda de calor e o prognóstico do Inmet para a primavera, região por região.

Em 13 de agosto, o índice chegou a 1,4°C, com o Inmet apontando "rápida intensificação" e a NOAA, mais de 90% de chance de um evento muito forte. No boletim seguinte, de 10 de setembro, o número saltou para 1,8°C.

Por que o Índice Niño 3.4 é o número que todo boletim cita

O Índice Niño 3.4 mede a temperatura da superfície do mar numa faixa específica do Pacífico central e equatorial, usada como referência mundial para monitorar o El Niño e a La Niña.

Segundo o Inpe, o fenômeno só é confirmado quando esse índice fica acima de 0,5°C por, no mínimo, cinco trimestres seguidos, o que evita classificar uma simples oscilação como El Niño.

O terceiro boletim do Painel El Niño reúne sete órgãos federais

O terceiro boletim do Painel El Niño 2026-2027 foi publicado em 2 de setembro de 2026, assinado por Inpe, Inmet, ANA, Cemaden, SGB, Sedec e Censipam.

O texto cita a previsão do CPC/NOAA, a agência meteorológica dos Estados Unidos, que aponta mais de 90% de probabilidade de um El Niño muito forte no trimestre de setembro a novembro.

Os modelos também indicam 100% de chance de o fenômeno seguir presente até pelo menos o início de 2027.

Gráfico da NOAA com o Índice Niño 3.4 de 1950 a 2023, destacando os episódios mais fortes de El Niño já registrados
Imagem: gráfico do Índice Niño Oceânico de 1950 a 2023, com os episódios de El Niño mais fortes da série marcados em vermelho. Nasa Scientific Visualization Studio, via Wikimedia Commons, domínio público.

O que a comparação com 1950 realmente significa

A série histórica que os meteorologistas usam para comparar El Niños começa em 1950 e reúne episódios fortes como os de 1957-58, 1972-73, 1982-83, 1997-98 e 2015-16, o mais recente da lista.

Quando a NOAA fala em 75% de chance de ser o mais forte desde 1950, a comparação é direta com esses cinco episódios, calculada para o trimestre de outubro a dezembro de 2026.

Por que o Sul deve ter mais chuva enquanto o Centro-Norte fica mais seco?

O El Niño muda a circulação atmosférica sobre o Pacífico e costuma deslocar as chuvas para o Sul do Brasil, ao mesmo tempo em que reduz a umidade que chega ao Norte e ao Nordeste.

O terceiro boletim do Painel El Niño prevê chuva acima da média no Rio Grande do Sul, estendendo-se ao Sul de São Paulo e ao Mato Grosso do Sul. Também prevê chuva abaixo da média no Centro-Norte do país, com temperatura acima da média em quase todo o território nacional.

No Rio Grande do Sul, o padrão de chuva mais forte já apareceu em setembro

O tipo de tempo que o El Niño costuma trazer para o Sul já deu as caras neste mês: em 18 de setembro, o Inmet emitiu alerta laranja para 226 municípios de Santa Catarina, com vento de até 100 km/h e risco de granizo.

O El Niño não causa uma tempestade isolada, mas eleva a chance de episódios assim se repetirem ao longo da primavera e do início do verão, segundo o padrão histórico descrito pelo Inmet para a região Sul.

Imagem de satélite do Sul do Brasil mostrando rios cheios e áreas alagadas próximas ao litoral
Imagem de satélite do litoral Sul do Brasil durante as enchentes de maio de 2024, usada aqui como ilustração do padrão de chuva acima da média que o El Niño favorece na região. MODIS Land Rapid Response Team/Nasa, via Wikimedia Commons, domínio público.

Na Amazônia, a seca do rio Negro em Manaus já preocupa

Enquanto o Sul se prepara para mais chuva, a Amazônia segue o caminho oposto. O rio Negro caiu a 20,66 metros no porto de Manaus em 21 de setembro, e o Serviço Geológico do Brasil já citou o El Niño como fator de peso na intensidade da vazante.

A seca também deixa mais exposta a fauna típica da bacia em trechos rasos, como o peixe elétrico descrito pelo Inpa em rios de altitude da Amazônia brasileira.

Imagem de satélite do rio Negro, na Amazônia, mostrando bancos de areia expostos durante a seca
Imagem de satélite do rio Negro perto de Novo Airão (AM), com bancos de areia expostos durante a seca de outubro de 2024, usada aqui como ilustração do padrão de vazante da bacia. Copernicus Sentinel-2/União Europeia, via Wikimedia Commons.

Santa Catarina já trata o El Niño como muito forte

A avaliação foi fechada nesta terça-feira (29), no 246º Fórum Climático Catarinense. "Para essa categoria, as anomalias da temperatura da superfície do mar precisam atingir ou superar o patamar de 2 °C. Na última semana, esse valor chegou a 2,2 °C", explicou a meteorologista Nicolle Reis, da Defesa Civil de Santa Catarina.

O órgão lembra que a classificação oficial da NOAA leva em conta a média das anomalias ao longo de alguns meses, e não uma semana só.

Na atualização de setembro, a agência americana já dava mais de 90% de chance de o evento chegar a muito forte na primavera e no verão de 2026/2027.

Para a primavera, o estado espera chuva acima da média e mais temporais, principalmente em outubro e novembro. O sinal já aparece nos registros de granizo em várias regiões de Santa Catarina nos últimos meses.

A probabilidade de 75% não fecha o resultado, lembra o próprio boletim

Nenhum boletim trata os 75% como um veredito fechado: é uma probabilidade, recalculada a cada mês conforme novos dados chegam do Pacífico, e pode subir ou cair no próximo relatório.

A velocidade da mudança já apareceu neste ano: em janeiro, o Brasil ainda estava sob La Niña, com 75% de chance de transição para a neutralidade. Em junho, o cenário já era outro, com o El Niño oficialmente declarado.

O próximo boletim deve sair em outubro, já no auge do fenômeno

O Painel El Niño 2026-2027 é atualizado mensalmente, e o próximo número deve confirmar, ou revisar, a força do fenômeno no trimestre de outubro a dezembro, o período usado para a comparação com 1950.

Até lá, o Inmet segue publicando os boletins quinzenais com o valor mais recente do Índice Niño 3.4. Você já notou esse padrão de chuva ou calor mudando na sua cidade? Conta pra gente nos comentários.

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