ICMBio tem programa de manejo do tamanduá-bandeira até 2035
O ICMBio tem um programa para reforçar e reintroduzir tamanduás-bandeira na natureza com animais de zoológicos, num primeiro ciclo de 2025 a 2035. Hoje, são 109 bichos em 29 instituições, e o próprio documento diz que esse plantel ainda não serve como população de segurança. A soltura é meta para depois.
Tamanduá-bandeira no Parque Estadual Encontro das Águas, no Mato Grosso, em agosto de 2024. Foto: Giles Laurent, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.
O ICMBio quer usar tamanduás-bandeira criados em zoológicos para reforçar e reintroduzir a espécie na natureza. O Programa de Manejo Populacional do Tamanduá-bandeira tem primeiro ciclo de 2025 a 2035, segundo a página oficial do instituto, coordenado por Ana Raquel Gomes Faria, da associação de zoológicos (AZAB) e do Zoológico de Brasília.
Por que o tamanduá-bandeira precisa de reforço
O ICMBio classifica a espécie como vulnerável desde a avaliação de 2022, e a lista global também a coloca nessa categoria. O documento do programa diz que há suspeita de perda de pelo menos 30% da população em 21 anos, o equivalente a três gerações.
Não existe contagem robusta. Com base na área ocupada pela espécie e em densidades de estudos antigos, o programa estima algo entre 1.052 e 9.186 animais. É uma conta de borda larga, e o documento a apresenta assim.
Estrada, fogo e perda de mata
Segundo o programa, a perda de hábitat tirou cerca de 7,6% da área de ocorrência em 21 anos. Os atropelamentos pesam mais: só em Mato Grosso do Sul, Goiás e São Paulo, pelo menos 10 mil tamanduás morreram em colisões no período, o que dá cerca de 476 por ano nesses três estados.
O texto estima que as colisões respondam por pelo menos 25% da redução populacional e que, sozinhas, podem cortar pela metade a taxa de crescimento da espécie. Fogo, agrotóxicos, metais pesados e conflitos com cães completam a lista de ameaças prioritárias. A matéria sobre tamanduás atropelados no Cerrado paulista mostra como isso aparece no campo.
Um bicho que repõe a população devagar
A gestação dura de 171 a 184 dias e nasce, no máximo, um filhote por ano. O intervalo entre nascimentos pode chegar a nove meses. Segundo o programa, a espécie vive cerca de 15 anos na natureza e só amadurece entre 2 e 5 anos de idade.
Por isso a conta fecha mal quando adultos morrem na estrada. No modelo de viabilidade citado pelo documento, a taxa de mortalidade e a fração de fêmeas reprodutoras são os parâmetros que mais mexem no resultado.
O que o manejo do tamanduá-bandeira prevê
O programa tem quatro objetivos: ordenar o plantel de zoológicos, formar uma população de segurança, restaurar populações na natureza e usar os animais em pesquisa, educação e captação de recursos. São 26 ações, cada uma com um responsável de instituições como UFG, ICAS, IEF-MG e ICMBio.
Entre elas estão mapear populações que precisam de reforço, montar uma chave de decisão sobre o destino de cada animal, testar vacina contra cinomose e rodar um piloto de preparo para soltura de bichos nascidos em zoológico.
O plantel de zoológicos em números
Até dezembro de 2022, o Brasil tinha 109 tamanduás-bandeira em 29 instituições: 47 machos, 59 fêmeas e 3 de sexo indeterminado. Desses, 61 nasceram na natureza e 45 em cativeiro. O livro genealógico conhece 73% das linhagens e guarda 94% da diversidade genética.
Para dar escala: 109 animais equivalem a cerca de 10% da estimativa mínima de população livre (1.052) e a pouco mais de 1% da máxima (9.186). A comparação é da redação, com as duas pontas do próprio programa.
Meta por meta, onde o programa está
| Meta do programa | O que o documento diz | Em que pé está |
|---|---|---|
| Ordenar o plantel dos zoológicos | 109 animais em 29 instituições, com 73% da genealogia conhecida | Livro genealógico (studbook) mantido pela AZAB |
| Formar uma população de segurança | O plantel atual não foi considerado bem manejado para isso | Precisa de mais instituições e de protocolos únicos |
| Devolver animais à natureza | Reforços e reintroduções, a partir de bichos de zoológico | Papel para o futuro: faltam áreas definidas e dados de soltura |
| Educação, pesquisa e captação de recursos | Papéis de apoio do plantel ex situ | Ações 12, 25 e 26 da lista |
Arte: Watts & Wild, com dados do Programa de Manejo Populacional do Tamanduá-bandeira, do ICMBio (dados do plantel até dezembro de 2022).
Mais da metade dos resgatados em Rio Preto não sobreviveu
O alerta mais duro do documento é a mortalidade fora da natureza. O Zoobotânico de São José do Rio Preto (SP) e a UNIRP receberam 282 tamanduás vítimas de ações humanas em 16 anos, e 144 morreram ou precisaram de eutanásia. O número vem de um caso só, não de todo o país.
O próprio programa diz que o número de bichos resgatados passa da capacidade das instituições, que elas nem sempre atualizam o sistema Sisfauna e que 28 animais estão em locais fora do programa.
Se você encontrar um tamanduá ferido ou um filhote sozinho
Não leve para casa nem tente alimentar. O programa lista a retirada indevida de filhotes da natureza entre as ameaças menores, e a destinação certa passa por um órgão ambiental. O caminho é chamar o Cetas ou o órgão do seu estado. Outro bicho do Cerrado com problema parecido é o lobo-guará.
O que o programa ainda não entrega
O ICMBio descreve metas, ações e responsáveis, mas a página oficial não traz data de publicação nem número de animais a soltar. O documento diz que a restauração populacional é papel para o futuro, porque faltam áreas prioritárias e dados sobre solturas já feitas.
As estimativas de população e de perda são suspeitas calculadas pelo instituto, não contagens. O primeiro ciclo vai até 2035, e o PDF completo do programa está na página do ICMBio para quem quiser conferir as 26 ações.
Fontes: ICMBio, página do Programa de Manejo Populacional do Tamanduá-bandeira, 1º ciclo (2025 a 2035). ICMBio, documento do programa (PDF).
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