Baleia-bicuda rara morre encalhada em praia de Florianópolis
Uma baleia-bicuda-de-Cuvier encalhou na manhã de sábado, 3 de outubro, na Praia dos Açores, em Florianópolis. Frequentadores tentaram devolver o animal ao mar, mas ele morreu na areia. A espécie vive em águas profundas, longe da costa, e quase nunca é vista da praia.
Foto de arquivo: baleia-bicuda-de-Cuvier no mar, vista de cima em levantamento aéreo na Califórnia (EUA). Não é o animal de Florianópolis. Foto: Laura (Laney) White/USGS, Wikimedia Commons, domínio público, recortada.
Uma baleia-bicuda-de-Cuvier (Ziphius cavirostris) encalhou na Praia dos Açores, em Florianópolis, na manhã de sábado, 3 de outubro, e morreu no local. Segundo o ND Mais, o caso chamou a atenção de moradores e frequentadores, que se mobilizaram para ajudar o animal.
Vídeos feitos na praia, publicados em redes sociais, mostram um grupo tentando desencalhar o animal enquanto as ondas cobriam parte do corpo. No começo, ele foi identificado como golfinho. A confirmação da espécie veio depois.
Uma espécie que quase ninguém vê da areia
A baleia-bicuda-de-Cuvier tem hábitos estritamente oceânicos. Ela vive em águas profundas e afastadas da costa, e por isso o ND Mais classifica como incomuns tanto a aproximação quanto o encalhe em uma praia.
O Instituto Australis, que atua no monitoramento de animais marinhos em Santa Catarina, explicou em 2020 que a espécie tem dentes e não filtra alimento como as baleias de barbatana. Nos machos, um par de dentes aponta para fora na ponta da mandíbula inferior.
O que a baleia-bicuda faz no fundo do mar
Quase tudo o que se sabe da rotina da espécie vem de animais marcados com rastreadores. Em 2014, uma equipe liderada por Gregory Schorr marcou oito indivíduos no sul da Califórnia e acompanhou os mergulhos por até três meses, segundo o artigo na PLOS ONE.
O mergulho mais fundo chegou a 2.992 metros, e o mais longo durou 137,5 minutos. A média dos mergulhos profundos ficou em 1.401 metros e 67,4 minutos, com cerca de 102 minutos entre um e outro.
| Medida do estudo | Valor |
|---|---|
| Baleias-bicudas-de-Cuvier marcadas com rastreador por satélite | 8 |
| Horas de dados de mergulho coletadas | 3.732 |
| Mergulho mais fundo | 2.992 m |
| Mergulho mais longo | 137,5 min (2 h 17 min) |
| Média dos mergulhos profundos | 1.401 m e 67,4 min |
| Intervalo médio entre dois mergulhos profundos | 102,3 min |
Arte: Watts & Wild, com dados de Schorr e colegas (2014), PLOS ONE, baleias marcadas no sul da Califórnia. O estudo não incluiu animais do Brasil.
Em outras palavras: o bicho que boiou na Praia dos Açores passa boa parte da vida em profundidades onde não chega luz do sol. Ver um adulto rente à arrebentação é, para a espécie, sair do próprio ambiente.
Por que a baleia-bicuda não é tão rara nas estatísticas
A espécie é cosmopolita e aparece nos oceanos de todo o planeta, menos nas regiões polares. Um artigo de 2016 na Marine Biodiversity Records lembra que a maior parte do conhecimento sobre os bicudos vem do exame de animais encalhados, justamente porque são difíceis de estudar no mar.
No Brasil, há registros de avistamentos e de encalhes. Os autores citam um trabalho segundo o qual a ocorrência na costa brasileira não é tão rara quanto se pensava. O mesmo artigo descreve uma fêmea grávida encontrada morta no Nordeste, com um artefato de pesca no estômago.
O precedente de 2020 em Palhoça
Em 13 de fevereiro de 2020, a equipe do Instituto Australis achou uma fêmea adulta de 6,20 metros na Praia da Guarda do Embaú, em Palhoça, segundo o NSC Total. Na época, foi o primeiro registro de encalhe da espécie em Santa Catarina.
A bióloga Karina Grosh disse que o caso mostrava que a espécie ocorre no estado, mas que, por não se aproximar da costa, é muito difícil ela chegar à praia, mesmo morta. O animal passou por necropsia pelo protocolo de encalhes do ICMBio e do monitoramento de praias.
Encontrou um animal marinho encalhado? Ligue antes de mexer
O Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS) atende o litoral de Laguna (SC) a Saquarema (RJ). Pelo site do projeto, quem encontrar animal vivo ou morto deve ligar para o 0800 642 3341.
As orientações publicadas pelo NSC Total, a partir do Instituto Australis, valem para baleias e golfinhos. Com o animal morto, informe o local e evite chegar perto, por risco de contaminação biológica. Com o animal vivo, o roteiro é outro:
- informe o local e o que for útil pelo mesmo telefone;
- não tente devolver o animal à água, porque pode ser perigoso;
- tire fotos, que ajudam a identificar a espécie;
- evite respirar o ar expirado por ele e não se aproxime da cauda.
O motivo da cauda é simples: são animais grandes e debilitados, que podem reagir à aproximação de várias pessoas e ferir alguém. Para bichos silvestres em terra, o caminho é outro, explicado em quem chamar no seu estado.
O que ainda está em aberto
A causa da morte da baleia-bicuda de Florianópolis está em aberto. Nenhuma nota de necropsia ou do monitoramento de praias sobre este animal foi localizada, e a idade e o sexo também não constam do relato do ND Mais. Encalhe, por si só, não aponta uma causa.
Os dados de mergulho vêm de baleias da Califórnia e servem como retrato da espécie, não do animal catarinense.
Para quem curte bicho marinho, vale ler também sobre as baleias-jubarte do litoral e sobre a desova das tartarugas marinhas. Para qualquer animal marinho vivo ou morto na areia, o PMP-BS indica o mesmo 0800.
Fontes: ND Mais, 3 de outubro de 2026. NSC Total, 13 de fevereiro de 2020. PMP-BS, Univali. Schorr et al., PLOS ONE, 2014. Marine Biodiversity Records, 2016.
Mais do Watts & Wild
Vídeo afirma que 5 mil bisões foram soltos no Texas, mas descrição não identifica projeto responsável pela recuperação ambiental atribuída aos animais
Cães-selvagens cercam porco-espinho e procuram abertura para atacar, mas defesa com espinhos leva matilha a se afastar na narrativa apresentada pelo Wild Beginnings
Primeiro filhote nasce e mãe ainda enfrenta novas contrações, mas segundo nascimento revela gêmeos de pelagem branca na história contada pelo Wildlife Survival Stories
Leopardo ataca cão em varanda na narrativa do Ley de la Selva, mas animal que consegue escapar é apresentado como pastor alemão