Pavãozinho-do-Pará abre as asas e enxota cutia numa poça do Pantanal: algo que guias nunca viram
Com as asas fechadas, o pavãozinho-do-Pará parece uma ave cinza e discreta. Quando uma cutia chegou perto da poça, ele abriu tudo de uma vez, com vermelho, amarelo e preto. O fotógrafo Marcos Amend filmou a cena no Pantanal sul-mato-grossense, e ornitólogos e guias dizem que nunca viram algo igual.
Pavãozinho-do-Pará na beira d'água em Poconé (MT), em julho de 2019. É foto de arquivo e não mostra a cena filmada em Miranda. Foto: Bernard Dupont, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 2.0, recortada.
Um pavãozinho-do-Pará abriu as asas e fez uma cutia desistir de chegar a uma poça d'água em Miranda, no Mato Grosso do Sul. O fotógrafo de natureza Marcos Amend filmou a cena no Refúgio Caiman, durante a seca do Pantanal, segundo o G1 Terra da Gente de 6 de outubro de 2026.
O que a câmera pegou na poça
Marcos estava num veículo de passeio turístico quando o grupo avistou a ave à distância. Pediu ao guia que chegasse mais perto e filmou o pavãozinho na água. Parou de gravar e, ao ver uma cutia atravessando, voltou a filmar, sem notar o quanto ela estava perto da ave.
Quando a cutia avançou em direção à água, a ave abriu as asas. Na primeira vez, a cutia recuou. Ao tentar voltar, o pavãozinho repetiu a exibição, com mais intensidade. A cutia saiu correndo e não chegou à poça.
"Ele se armou bem, se fez grandão com as penas pra afugentar a cutia e funcionou", contou Marcos ao G1.
Por que o pavãozinho-do-Pará abre as asas
Segundo o ornitólogo Fernando Igor de Godoy, ouvido pelo G1, a abertura das asas é uma estratégia para intimidar possíveis predadores. A ave tem corpo fino e alongado e, de repente, fica grande e colorida. "Isso causa uma surpresa e assusta o possível predador", explica.
As cores ajudam. Com as asas abertas aparecem detalhes em branco, preto, vermelho, amarelo e marrom que quase somem com a plumagem fechada, de tons marrons e cinza. O mesmo recurso aparece nas exibições de reprodução, conforme Godoy.
Cutia não é predador de ave, e isso muda a leitura
Aqui está o ponto fora do comum. "Ele faz isso como uma forma de intimidar seus possíveis predadores, o que não é o caso de uma cutia", disse Godoy. O G1 lembra que há registros de cutias comendo pequenos pássaros, mas caçar aves não é hábito do bicho.
Ou seja, a ave acionou uma defesa conhecida numa situação diferente da habitual. Como vive no chão, a exibição pode funcionar como defesa rápida contra qualquer coisa que se aproxime.
Asas fechadas e asas abertas: o que muda na ave
| O que se vê | Asas fechadas | Asas abertas |
|---|---|---|
| Cores | Marrom e cinza, em padrão rajado | Branco, preto, vermelho, amarelo e marrom à mostra |
| Tamanho aparente | Corpo fino e alongado | A ave parece maior |
| Efeito em quem olha | Passa discreta, não chama atenção | Surpresa que pode assustar o possível predador |
| Para que serve | Andar no chão, de lado, sem ser notada | Defesa contra predadores e exibição na reprodução |
Arte: Watts & Wild, com dados do G1 Terra da Gente de 6 de outubro de 2026, a partir de Marcos Amend e Fernando Igor de Godoy.
A poça é disputada porque a água sumiu
Com menos água em certas áreas do Pantanal, pequenos pontos d'água podem concentrar animais diferentes, explica o G1. Marcos chamou a poça de "tão disputada nessa época".
A seca aparece nos números do estado. O rio Paraguai marcou 138 centímetros em Ladário em 23 de setembro, 160 centímetros abaixo da mediana histórica, como mostra a matéria sobre a régua de Ladário.
A área queimada no Mato Grosso do Sul quase triplicou em 2026, com o Ibama apontando outubro, novembro e dezembro como o período mais crítico, segundo esta cobertura do fogo no Pantanal.
Quem viu o vídeo e o que disse
Marcos mostrou as imagens a quem estuda aves. O ornitólogo Mario Cohn-Haft, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), disse que em mais de 30 anos acompanhando a fauna na Amazônia nunca tinha visto esse comportamento.
Guias de observação de aves do Pantanal também disseram o mesmo. "Então parece que é uma coisa que não é nada comum do pavãozinho", relatou Marcos. Depois da cena, a ave entrou na mata e foi vista de novo com outro indivíduo, num galho: "Eu não sei se era um casal, eram dois juntos, provavelmente um casal".
A espécie e onde ela vive
O pavãozinho-do-Pará (Eurypyga helias) vive perto de água, em margens de rios e áreas alagadas, mas não é ave aquática. No Brasil ocorre em grande parte da Amazônia, do Cerrado e do Pantanal, e passa a maior parte do tempo no chão.
Outra ave com um truque de corpo pouco óbvio é a coruja, que gira o pescoço até 270 graus, como conta o texto sobre a anatomia desse giro.
O que o vídeo mostra e o que ele não prova
O registro mostra uma cena numa poça, num dia de seca. Ele não prova que o pavãozinho nunca tenha aberto as asas assim antes: guias e pesquisadores dizem que nunca viram, mas isso é relato, não levantamento. O próprio G1 faz essa ressalva.
A reportagem não traz a data da gravação nem estudo publicado sobre o comportamento. A explicação da intimidação é a leitura do ornitólogo ouvido, e a cutia foi afastada nesse encontro específico. O vídeo e o texto completo estão na página do G1 Terra da Gente.
Fontes: G1 Terra da Gente, reportagem de 6 de outubro de 2026. Fotos: Bernard Dupont, Gknor e Giles Laurent, no Wikimedia Commons.
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