Morcegos surgiram na Europa há mais de 56 milhões de anos, diz estudo da Nature com 103 genomas e 44 fósseis
Os morcegos e o voo motorizado nasceram na Europa, no fim do Paleoceno, há mais de 56 milhões de anos. O consórcio Bat1K cruzou 103 genomas de todas as 21 famílias vivas com 44 fósseis. O estudo saiu na Nature em 23 de setembro, e a Texas A&M o divulgou em 6 de outubro.
Morcego de Daubenton (Myotis daubentonii) em voo. Foto: Daniel Whitby / Texas A&M University (divulgação), usada com crédito.
Os morcegos surgiram na Europa há mais de 56 milhões de anos, e a ecolocalização feita na garganta apareceu antes de os grupos atuais se separarem. É o que indica o artigo do consórcio Bat1K na Nature, descrito no comunicado da Texas A&M.
Por que os morcegos surgiram na Europa, segundo o estudo
A equipe analisou genomas montados cromossomo a cromossomo de 103 espécies vivas, com ao menos uma de cada uma das 21 famílias de morcegos. Juntou esses dados ao maior conjunto de características anatômicas de morcegos vivos e extintos já reunido, com 44 fósseis.
O resultado aponta um ancestral do fim do Paleoceno que viveu na Europa. O artigo dá 99,2% de probabilidade posterior para essa origem europeia. Ele contraria hipóteses anteriores que punham o berço dos morcegos na América do Norte, na África ou na Ásia.
De lá para o mundo, num intervalo curto
Os descendentes foram, com maior probabilidade, para a África. Desse eixo Europa-África saíram várias expansões independentes rumo às Américas, à Ásia e à Austrália.
Os quatro grandes grupos de morcegos modernos se diversificaram num intervalo curto no início do Eoceno. O artigo liga isso ao máximo térmico do Paleoceno-Eoceno, por volta de 56 milhões de anos atrás, quando o clima do planeta esquentou.
Voar e ecolocalizar: o que veio antes
A dúvida central é se o morcego aprendeu a voar antes ou depois de "enxergar" com o som. O artigo não separa as duas coisas no tempo. Ele conclui que o voo surgiu com o ancestral europeu e que a ecolocalização laríngea, feita com sons da garganta, é anterior à diversificação dos morcegos de hoje.
Os autores veem uma ligação estreita entre as duas habilidades na linhagem do ancestral comum. Os fósseis mais antigos conhecidos, de 56 a 52 milhões de anos, já mostram voo e ecolocalização prontos.
Os achados do artigo e a confiança de cada um
| O que o artigo conclui | Quando e onde | Confiança que o artigo declara |
|---|---|---|
| O ancestral dos morcegos surgiu na Europa | Fim do Paleoceno, mais de 56 milhões de anos | 99,2% de probabilidade posterior para a Europa |
| Os descendentes se espalharam, na maior probabilidade, pela África | Depois, de um eixo Europa-África, houve expansões independentes para Américas, Ásia e Austrália | Descrito como "mais provável" |
| Os quatro grandes grupos modernos se diversificaram num intervalo curto | Início do Eoceno, perto do máximo térmico do Paleoceno-Eoceno (cerca de 56 milhões de anos) | Datas estimadas com 44 fósseis |
| A ecolocalização feita na garganta é anterior à diversificação dos morcegos atuais | Antes do surgimento dos grupos vivos | Apoia-se na posição do fóssil Vielasia, com 68% de probabilidade |
Arte: Watts & Wild, com dados do artigo da Nature (DOI 10.1038/s41586-026-11007-3) e do comunicado da Texas A&M.
Uma árvore mais completa e um truque do cromossomo X
Os morcegos são mais de 1.500 espécies, mais de um quinto de todos os mamíferos vivos. Mesmo assim, a árvore genealógica do grupo vivia em disputa. Surtos rápidos de evolução, cruzamento entre linhagens e poucos fósseis embaralhavam o quadro.
O novo trabalho resolveu ramos em disputa, entre eles o dos morcegos-de-ventosa de Madagascar, que formam o ramo mais antigo do grupo que reúne os morcegos-de-fim-de-tarde e os de cauda livre.
Para desempatar, a equipe da Texas A&M usou uma região do cromossomo X onde o material genético quase não se embaralha na reprodução. Ela guarda a história antiga mesmo quando o resto do genoma dá respostas conflitantes. Na árvore dos morcegos, a região concordou com a árvore montada a partir de genomas e fósseis.
Onde entram os morcegos brasileiros
O artigo não traz um recorte para o Brasil. Mas a família Phyllostomidae, a mais variada do Novo Mundo, que inclui os morcegos-vampiros e muitos frugívoros, está entre as 21 amostradas. O vampiro e o Platyrrhinus das fotos são dessa família.
A pesquisadora Nicole Foley, da Texas A&M, diz que morcego tem má fama por causa da raiva, mas vive muito e resolveu problemas que também afetam gente. Sobre o risco real da raiva, vale ler o que fazer se um morcego entrar em casa e a vacinação de cães e gatos contra a doença.
O que a árvore nova ainda não prova
Os números são estimativas de modelos, e o próprio artigo escreve que os morcegos "mais provavelmente" surgiram na Europa. O registro fóssil de morcegos é pequeno e fragmentado, e boa parte da história continua sem fóssil.
A conclusão sobre a ecolocalização depende de onde o fóssil Vielasia entra na árvore, com 68% de probabilidade. A relação entre voo e ecolocalização é uma inferência dos autores, não uma observação direta.
O consórcio quer agora genomas de referência de todas as espécies vivas. O artigo completo está em nature.com, com o DOI 10.1038/s41586-026-11007-3.
Fontes: Nature, Reference genomes and fossils revise bat family phylogeny and biogeography, 23 de setembro de 2026. Texas A&M Stories, comunicado de 6 de outubro de 2026.
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