Cientistas acharam na China um vírus novo transmitido por carrapato em 1 de cada 10 pacientes picados que foram testados; a espécie de carrapato que o carrega nunca foi registrada no Brasil, diz estudo de 2020
O vírus foi batizado de ALTNV e já foi achado em carrapatos de 15 províncias chinesas. A pergunta que interessa a quem mora aqui: a espécie que transmite esse vírus existe no Brasil? Não há registro dela no país, diz estudo de 2020. O risco brasileiro nas trilhas e pastos é outro.
Fêmea do carrapato-asiático-de-chifre-longo, a espécie que transmite o vírus novo, vista por baixo. Foto: James Gathany, CDC, via Wikimedia Commons, domínio público.
Não: a espécie que transmite o vírus novo achado na China, o carrapato-asiático-de-chifre-longo, não tem registro no Brasil nem em outro país da América do Sul, segundo o levantamento de 2020 da Lancet Planetary Health e a lista de carrapatos do Brasil de 2019. O vírus, chamado ALTNV, foi encontrado em pacientes chineses e em amostras de 15 províncias.
No Brasil, a doença de carrapato que pede atenção é outra: a febre maculosa, que pode matar nas formas graves, segundo o Ministério da Saúde.
A descoberta foi publicada no começo de setembro no New England Journal of Medicine, uma das revistas médicas mais lidas do mundo, por uma equipe do Laboratório Estatal de Patógenos e Biossegurança, em Pequim.
O centro de doenças infecciosas da Universidade de Minnesota, o CIDRAP, noticiou o estudo em 3 de setembro, com o nome do vírus e os números usados aqui, e o texto voltou a circular no ScienceDaily em 28 de setembro.
Como o vírus novo foi achado
Tudo começou com um mistério. Na China e em outros países da Ásia circula outro vírus de carrapato, o DBV, que causa uma febre grave com queda das plaquetas, a SFTS. Essa doença mata de 10% a 30% dos doentes, e o DBV está na lista de patógenos prioritários para pesquisa da Organização Mundial da Saúde.
Só que cerca de 30% das pessoas com sintomas de SFTS davam negativo no exame para o DBV. Os cientistas queriam saber o que elas tinham.
A equipe coletou amostras de pessoas picadas por carrapato e atendidas em hospitais de vigilância, em regiões da China onde vírus de carrapato já circulam. Sequenciando o material genético dessas amostras, acharam um vírus que ninguém conhecia.
O vírus é do grupo dos orthonairovírus. As proteínas dele têm menos de 80% de semelhança com as de outros vírus do grupo, o que o separa como uma espécie nova. Ele cresceu em células de laboratório, e o microscópio eletrônico mostrou a forma típica desse grupo.
Quantas pessoas tinham o vírus?
O estudo incluiu 3.163 pacientes testados, segundo o resumo do CIDRAP. Deram positivo para o ALTNV 10,4%, cerca de 1 em cada 10, pelo material genético do vírus no sangue ou por anticorpos que indicam infecção recente.
Entre os que tinham dado negativo para o DBV, a parte com o vírus novo foi maior: 15,1%. É uma pista de que o ALTNV explica parte dos casos que antes ficavam sem diagnóstico.
Que sintomas o vírus causa?
Quem teve só o ALTNV ficou com um quadro parecido com o de uma gripe forte. O sintoma mais comum foi o cansaço, em 84% dos pacientes. Problemas digestivos vieram em seguida, em 80%.
Os exames mostraram plaquetas baixas em 38% e enzimas do fígado altas em 36%, sinal de inflamação ou lesão. Todos os pacientes que tiveram só o vírus novo se recuperaram por completo, segundo o estudo.
O perigo aparece quando os dois vírus vêm juntos
Os pesquisadores acharam 38 pacientes com os dois vírus ao mesmo tempo, o ALTNV e o DBV. Comparados com quem teve só o DBV, eles tiveram mais sintomas respiratórios, 61% contra 38%, e mais problema nos rins, 84% contra 66%.
Sete dos 38 pacientes com os dois vírus morreram, 18,4% do grupo. Como os dois vírus circulam nas mesmas regiões e usam o mesmo carrapato, os autores dizem que os médicos de lá precisam de exames que separem uma infecção da outra.
O carrapato que carrega o vírus
A equipe também testou 47.428 carrapatos de 15 províncias chinesas. O vírus apareceu em 1,3% deles. A espécie com mais vírus foi o carrapato-asiático-de-chifre-longo, o Haemaphysalis longicornis, com 1,8% dos exemplares positivos.
Em laboratório, os cientistas mostraram que essa espécie consegue passar o vírus para camundongos, o que reforça que ela é a transmissora.
A espécie é nativa do leste da Ásia. Um levantamento global publicado em 2020 na revista Lancet Planetary Health a encontrou em dez países, a maioria no leste asiático, além de Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia. O mesmo estudo ligou a espécie a pelo menos 30 micróbios que causam doença em pessoas.
Esse carrapato existe no Brasil?
Não há registro. O levantamento da Lancet Planetary Health diz que a espécie nunca foi registrada na América do Sul, na Europa nem na África. Mas a modelagem do mesmo estudo aponta que essas regiões têm áreas favoráveis à espécie, e por isso os autores pedem vigilância.
A lista oficial de carrapatos do Brasil, atualizada em 2019 por pesquisadores da Fiocruz, da USP, do Butantan e da Unesp, tem 70 espécies. O grupo mais numeroso é o Amblyomma, com 32 espécies. A lista saiu na revista Ticks and Tick-borne Diseases.
O estudo do vírus novo descreve casos só na China.
E a doença de carrapato que existe aqui?
No Brasil, a doença de carrapato descrita pelo Ministério da Saúde como de gravidade variável, com letalidade elevada nas formas graves, é a febre maculosa. Ela é causada por bactérias do gênero Rickettsia, não por vírus, e é transmitida pela picada do carrapato.
A forma mais grave, a febre maculosa brasileira, aparece no norte do Paraná e nos estados do Sudeste. Uma forma mais leve já foi registrada em áreas de Mata Atlântica do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, da Bahia e do Ceará.
Os primeiros sinais são febre, dor de cabeça forte, náusea, vômito e dor no corpo. Depois podem surgir manchas vermelhas nos pulsos e tornozelos, que não coçam. Todo caso tem notificação obrigatória, e o tratamento com antibiótico é feito pelo SUS e deve começar logo na suspeita, sem esperar o exame.
Como se proteger de carrapato
O Ministério da Saúde recomenda roupa clara, que ajuda a ver o bicho escuro, e calça, bota e manga comprida em trilha, pasto e mato. Vale evitar grama e vegetação alta, usar repelente próprio para carrapato e olhar o corpo e os bichos de estimação na volta.
Se achar um bicho preso na pele, tire com uma pinça, puxando com cuidado e firmeza, sem apertar nem esmagar. Depois, lave o local com álcool ou água e sabão. Quanto mais rápido ele sai, menor o risco de doença.
Febre depois de uma picada pede ida à unidade de saúde, contando onde a pessoa esteve.
Aqui no site tem também os erros mais comuns com escorpião dentro de casa, o que fazer na picada da aranha-marrom e a vacina contra a raiva em cães e gatos.
Perguntas rápidas
O que é o vírus ALTNV?
É um vírus novo, do grupo dos orthonairovírus, identificado por cientistas chineses em pessoas picadas por carrapato. O nome vem do carrapato que o transmite, o carrapato-asiático-de-chifre-longo. O estudo saiu em setembro no New England Journal of Medicine.
O vírus ALTNV já chegou ao Brasil?
Não há registro. O estudo achou o vírus em pacientes e carrapatos da China. O carrapato que o transmite nunca foi registrado na América do Sul, segundo um levantamento global de 2020 na revista Lancet Planetary Health.
Qual doença de carrapato preocupa no Brasil?
A febre maculosa, causada por bactérias do gênero Rickettsia. A forma grave aparece no norte do Paraná e no Sudeste, segundo o Ministério da Saúde. Todo caso deve ser notificado, e o tratamento com antibiótico é feito pelo SUS.
Como tirar um carrapato do corpo?
Com uma pinça, puxando com cuidado e firmeza, sem apertar nem esmagar o carrapato. Depois, lave o local com álcool ou água e sabão. Quanto mais rápido ele sai, menor o risco de doença, orienta o Ministério da Saúde.
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