Arraias de água doce vivem escondidas na areia dos rios do Pantanal e de outras bacias do Centro-Oeste e do Norte do Brasil, e ferroam quando alguém pisa em cima delas sem perceber
Arraias de água doce vivem na areia dos rios do Pantanal e do Araguaia. O HDT-UFNT explica por que arrastar o pé evita a picada e o que fazer se ela acontecer.
Arraia de água doce da espécie Potamotrygon motoro, encontrada em rios do Pantanal e de outras bacias do Brasil. Foto: shankar s./Wikimedia Commons (CC BY 2.0).
Arraias de água doce vivem no fundo arenoso de rios do Pantanal, do Araguaia e de outras bacias do Centro-Oeste e do Norte do Brasil. O Hospital de Doenças Tropicais da UFNT orienta arrastar o pé na areia antes de pisar, hábito simples que afasta o bicho e evita a ferroada, que pode causar necrose.
A arraia de água doce é um peixe cartilaginoso que vive camuflado na areia do fundo de rios do Pantanal, do Araguaia e de outras bacias do Centro-Oeste e do Norte do Brasil. O contato acontece quando alguém pisa sem perceber sobre o animal parado no leito raso do rio.
Levantamento do Hospital de Doenças Tropicais da Universidade Federal do Norte do Tocantins (HDT-UFNT) mostra que os acidentes se concentram na temporada de praia de rio, entre julho e setembro, quando o nível da água baixa e deixa o animal mais exposto ao banhista.
Arrastar o pé no fundo do rio antes de cada passo é a orientação oficial para evitar a picada. Segundo o biólogo Sandro Moron, da UFNT, o movimento avisa a arraia e dá tempo para ela nadar para outro lugar antes do pisão.
A arraia de água doce se esconde na areia dos rios do Pantanal e do Araguaia
Peixes da família Potamotrygonidae são os únicos elasmobrânquios do planeta adaptados só à água doce. No Brasil, o gênero Potamotrygon reúne 27 espécies, das quais 21 ocorrem no país e 11 são endêmicas dos rios brasileiros, segundo o biólogo da UFNT.
A espécie Potamotrygon falkneri, por exemplo, é encontrada nas bacias do rio Paraná e do rio Paraguai, do trecho de Cuiabá até o rio da Prata, na Argentina, conforme reportagem do Correio do Estado sobre o berçário de arraias do Bioparque Pantanal.
Por que arrastar o pé no fundo do rio afasta o animal?
O formato de disco achatado e a cor parecida com a areia tornam a arraia quase invisível para quem entra no rio. Ela passa a maior parte do tempo parada, sozinha, junto ao fundo arenoso ou perto de pedras pequenas.
Por isso, o hospital recomenda calçado e atenção redobrada ao entrar na água. Arrastar o pé, em vez de pisar direto, empurra a vibração até o animal antes do contato e dá tempo de ele se afastar.
O ferrão da arraia causa lesão, dor e risco de necrose no local
O cirurgião geral do HDT-UFNT, Marcelo de Oliveira Melo, explica que o acidente reúne três fatores de gravidade. São eles: a lesão perfurante, o efeito do veneno, que causa dor intensa e pode levar à necrose, e a infecção por bactérias que o ferrão introduz na ferida.
O ferrão fica na cauda longa da arraia, coberto por um epitélio glandular que produz veneno. O muco que reveste o corpo do animal também abriga bactérias, o que soma o risco de infecção bacteriana secundária ao ferimento.
O relato de quem foi ferroada na beira do rio, no Tocantins
Rosirene Alcanfôr, chefe da Unidade de Serviços Gerais do HDT-UFNT, foi ferroada em julho de 2019 ao sair do rio calçada, à noitinha, na parte rasa da praia, em um passeio com a família.
"É uma dor quase insuportável, semelhante a um corte de faca de serra, que durou até o dia seguinte", contou ela em depoimento ao hospital. A recuperação da ferida, com necrose constante na região, levou seis meses.
Os pés, os tornozelos e a canela são as áreas mais atingidas
O médico do HDT-UFNT explica que o acidente costuma acontecer quando a pessoa pisa no dorso do animal, que reage cravando o ferrão na vítima. As áreas mais afetadas são os pés, os tornozelos e o terço distal das pernas.
Isso acontece porque a arraia fica encostada no fundo, e o contato do peso do corpo contra o dorso do animal é o gatilho que aciona a reação de defesa, com a cauda chicoteando o ferrão para cima.
A compressa de água morna é o primeiro socorro indicado pelo hospital
O protocolo do HDT-UFNT manda aquecer o local da ferroada com água morna, entre 38 e 42 graus, por 30 minutos, ou fazer compressa quente assim que o acidente acontecer, antes mesmo de sair do local do banho.
O calor quebra as proteínas do veneno, o que reduz a dor e diminui a chance de necrose no tecido atingido. Depois da compressa, o passo seguinte é procurar atendimento médico sem demora.
A limpeza da ferida sob anestesia não pode esperar, alerta o cirurgião
Na unidade de saúde, a ferida passa por limpeza sob anestesia local, com desbridamento, que é a retirada de bactérias, areia e restos do fundo do rio que ficam presos no ferimento junto com o ferrão. Depois, começa o tratamento com antibióticos.
"O atraso em procurar o atendimento médico adequado pode levar a sequelas graves, como já observamos no HDT", afirma o cirurgião Marcelo de Oliveira Melo. Quanto mais cedo vem a compressa e o desbridamento, mais rápida é a recuperação.
As arraias de água doce são exclusivas dos rios sul-americanos
As arraias de água doce evoluíram de um ancestral marinho que entrou no continente durante invasões do mar na Amazônia, entre o Eoceno e o Mioceno, cerca de 50 a 20 milhões de anos atrás, segundo o professor da UFNT.
Quando o mar recuou, essas espécies se adaptaram ao ambiente de água doce e não voltaram para o oceano. Hoje a família Potamotrygonidae reúne quatro gêneros e 34 espécies, todas restritas à América do Sul.
O animal é dócil e só ataca quando alguém pisa sobre ele
Apesar da fama de agressiva, a arraia de água doce só usa o ferrão como defesa. O bicho é considerado dócil pelos especialistas da UFNT e prefere fugir a atacar, desde que tenha espaço para se afastar.
O ponto de atenção real não é o encontro com o animal, e sim o pisão sem aviso. Sem o susto do contato direto, a arraia se afasta sozinha e o banho de rio segue sem incidente.
A temporada de praia de rio no Centro-Oeste e no Norte pede atenção redobrada
A maioria dos acidentes com arraia ocorre no período de seca, quando o nível dos rios baixa e o animal fica mais exposto nas praias de água doce do Pantanal, do Araguaia e de outras bacias da região.
O HDT-UFNT reforça a orientação para quem for a essas praias no fim de ano: calçado, atenção ao caminhar na água rasa e o hábito de arrastar o pé antes de cada passo. Você já viu uma arraia em algum rio brasileiro? Conte nos comentários.
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