O macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta, batizado pelo hábito de urinar na própria cauda depois de se limpar, vive numa área de pouco mais de 900 km² entre a Reserva Mamirauá e duas ilhas vizinhas no Amazonas, segundo o ICMBio
O Saimiri vanzolinii ocupa a menor área de distribuição de qualquer primata das Américas, mas parte da população vive fora dos limites oficiais da Reserva Mamirauá. O ICMBio classifica a espécie como Em Perigo.
Macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta (Saimiri vanzolinii) em galho na Amazônia. Crédito: Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0 (Cláudio Timm).
O macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta foi descrito em 1985 a partir de exemplares recolhidos na confluência dos rios Solimões e Japurá, no Amazonas. Hoje o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) mede a área de vida da espécie entre 870 km² e 913 km², dividida em três populações isoladas.
O macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta, cujo nome científico é Saimiri vanzolinii, tem a menor extensão de ocorrência entre todos os primatas neotropicais conhecidos: entre 870 km² e 913 km², uma área menor que o município do Rio de Janeiro, segundo o ICMBio.
A espécie foi descrita em 1985 pelo biólogo José Márcio Ayres, com base em exemplares recolhidos na confluência dos rios Solimões e Japurá. Desde 2019, o ICMBio classifica o macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta como Em Perigo (EN).
Não é verdade que o mico-de-cheiro exista só dentro da Reserva Mamirauá. O ICMBio também registra populações em Tarará e Capucho, duas pequenas ilhas do rio Solimões fora dos limites oficiais da reserva. As três populações vivem isoladas, sem troca genética entre si.
Onde exatamente vive o Saimiri vanzolinii, além da Reserva Mamirauá
O ICMBio descreve a distribuição do macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta como restrita à Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e a duas pequenas ilhas do rio Solimões, Tarará e Capucho, fora dos limites oficiais dessa unidade de conservação. A localidade-tipo da espécie é a margem norte do lago Mamirauá.
Pesquisadores também registraram o macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta na Terra Indígena Porto Praia, segundo o levantamento de Fernanda Pozzan Paim citado pelo ICMBio. A área de vida de cada grupo social gira em torno de 50 a 100 hectares.
O comportamento de higiene que deu nome ao mico-de-cheiro
Depois de pentear o próprio pelo, o mico-de-cheiro urina na cauda e a encharca com as mãos, segundo reportagem do (o)eco baseada em informações do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. É esse hábito de higiene que deu à espécie o apelido popular de mico ou macaco-de-cheiro.
O hábito se repete ao longo do dia, entre os períodos em que o animal se desloca pela copa das árvores em busca de frutos e pequenos insetos. É esse comportamento, registrado pelo Instituto Mamirauá, que explica o forte cheiro característico do bicho.
Como reconhecer o macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta no meio da mata
Um arco de pelos claros acima dos olhos, parecido com um capacete romano, e uma coroa preta que cobre até as orelhas marcam o macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta. Mãos, antebraços e pés têm coloração amarelo-dourada, segundo a ficha de avaliação do ICMBio.
As costas do animal formam uma faixa escura contínua, da cabeça até a cauda, enquanto a garganta é esbranquiçada e o peito tem tom amarelo-queimado. Nas fêmeas, a cabeça costuma ser mais escura do que a dos machos.
A floresta de várzea que a espécie não troca por nenhuma outra
A distribuição inteira do macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta fica dentro de florestas de várzea amazônica, alagadas boa parte do ano, segundo o ICMBio. A espécie prefere um tipo específico de vegetação chamado chavascal, formado por árvores baixas e pouco diversas.
Esse ambiente permanece inundado entre 105 e 125 dias por ano, de acordo com estudo citado na avaliação do órgão. Uma floresta de várzea alagada também abriga outra descoberta recente da ciência brasileira: a rã Adenomera varcena, descrita em fragmentos de mata alagada no Alto Juruá, no Acre.
Por que o cardápio muda entre a cheia e a seca do rio
A dieta do macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta é frugívoro-insetívora, alternando entre frutos e pequenos artrópodes, como aranhas e insetos, segundo o Instituto Mamirauá. A proporção de frutos na dieta aumenta durante a cheia do rio, quando a oferta de vegetação é maior.
Na seca, quando os frutos ficam mais escassos na várzea, os artrópodes passam a ocupar uma fatia maior do cardápio. Essa alternância sazonal é um dos temas estudados por pesquisadores da Reserva Mamirauá há quase duas décadas.
Quantos macacos-de-cheiro-de-cabeça-preta existem hoje na Amazônia?
Um monitoramento de cinco anos, entre 2009 e 2013, estimou a população do macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta em cerca de 147.800 indivíduos maduros, segundo o levantamento de Fernanda Paim citado pelo ICMBio. A densidade média registrada foi de 359 indivíduos por km² ao longo do período.
Cada grupo social reúne em média 13,2 indivíduos, bem menos do que se imagina para o gênero Saimiri. Apesar da densidade estável nos anos de monitoramento, o ICMBio classifica a tendência populacional da espécie como em declínio.
A ameaça que pesa mais que a caça sobre a espécie
Diferente de boa parte da fauna amazônica, o macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta não é caçado nem usado em pesquisas médicas: não existem usos relatados para a espécie, segundo o ICMBio. A principal ameaça listada pelo órgão são as mudanças climáticas futuras.
Projeções citadas na avaliação indicam perda de pelo menos 80% do hábitat considerado altamente adequado para a espécie ao longo dos próximos 24 anos, o equivalente a três gerações do animal. O ICMBio suspeita de uma queda populacional de pelo menos 50% no mesmo período.
O ICMBio também atua quando a ameaça é mais imediata, como na retirada de 69 ararinhas-azuis de um criadouro clandestino na Bahia, levadas a um centro de conservação em Pernambuco. Para o macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta, porém, o risco é lento e depende do clima, não de uma ação pontual.
Um único temporal pode atingir as três populações ao mesmo tempo
As três populações do macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta ocupam a mesma planície de inundação, o que as deixa vulneráveis a um único evento extremo. Uma cheia severa poderia afetar toda a distribuição da espécie dentro de uma geração, cerca de oito anos, segundo o ICMBio.
Modelos hidrológicos citados na avaliação preveem aumento de pelo menos 10% na extensão máxima de inundação da região até o fim do século, além de cheias mais frequentes e intensas. Esse cenário reforça o risco de uma espécie que já vive no menor território de qualquer primata das Américas.
O que hoje protege o macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta na Amazônia
O ICMBio mantém desde 2017 o Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Primatas Amazônicos, que inclui o macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta entre as espécies monitoradas. A Reserva Mamirauá segue como a principal área protegida onde a espécie ocorre.
Casos parecidos de recuperação lenta, sob monitoramento constante, aparecem também na história do mico-leão-dourado, que subiu de 200 para 4.800 indivíduos na Mata Atlântica fluminense depois de décadas de trabalho do ICMBio. Você já tinha ouvido falar do macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta antes de hoje? Conte nos comentários.
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