O Ibama lavrou 565 termos de soltura de animais silvestres no Brasil em 2025, soltando ao menos 12.820 bichos de volta à natureza, com Sergipe à frente entre os estados
O Watts & Wild refez a conta dos termos de soltura do Ibama em 2025 e mapeou quantos animais silvestres voltaram à natureza, em qual estado e de qual grupo.
O Watts & Wild baixou a base pública de fiscalização do Ibama e refez a conta dos termos de soltura de 2025: 565 casos válidos, ao menos 12.820 animais devolvidos à natureza e mais 4,6 toneladas de animais aquáticos, quase todos crustáceos, soltos sem contagem por indivíduo, com Sergipe, Pará e Amazonas à frente.
Canários-da-terra (Sicalis flaveola) recolhidos pelo Ibama pouco antes da soltura. Foto: Ibamagov/Flickr (CC BY-SA 2.0).
O Ibama lavrou 565 termos de soltura de animais silvestres válidos em 2025 no Brasil, segundo a base de dados abertos do órgão. Cada termo formaliza a devolução de um animal, ou de um lote inteiro, ao habitat de origem depois de uma ação de fiscalização ambiental.
A conta foi refeita pelo Watts & Wild diretamente nos dois arquivos que o Ibama publica sobre o assunto, ligando cada espécime solto ao termo que autorizou a soltura. O cálculo exclui os termos cancelados ou excluídos no próprio sistema do órgão.
Ao menos 12.820 animais silvestres foram devolvidos à natureza em termos de soltura válidos de 2025. Mais 4,57 toneladas de animais aquáticos, quase todos crustáceos, foram soltas e pesadas no mesmo ano, sem contagem por cabeça. Sergipe concentra a maior fatia de animais soltos, e a Paraíba abre mais casos.
O que é um termo de soltura, e por que ele não é a mesma coisa que resgate?
Termo de soltura é o documento que formaliza a devolução de um animal apreendido em fiscalização à natureza, conforme a Portaria Ibama nº 1, de 16 de agosto de 2016, citada pelo próprio órgão na descrição da base. Ele só existe quando a soltura de fato acontece.
Isso significa que a base de dados usada aqui não cobre todo animal resgatado no Brasil em 2025. Um bicho pode ser apreendido e passar meses num centro de triagem antes de qualquer termo ser lavrado, como aconteceu com o furão mantido como pet por sete meses e depois entregue ao Ipaam, no Amazonas.
Paraíba abre mais casos, mas Sergipe e Pará somam mais animais soltos em 2025
A Paraíba lidera em número de termos, com 112 casos abertos em 2025, quase um quinto do total nacional. O Pará vem logo atrás, com 103 termos, mas soma bem mais bichos por caso.
O Pará responde por 2.086 dos 12.820 animais soltos no ano, cerca de um sexto do total, em segundo lugar. O número é puxado por solturas de caranguejo-uçá (952) e de canário-da-terra (681).
Por que Sergipe lidera em animais soltos com só 12 casos
Sergipe tem apenas 12 termos de soltura no ano, um dos números mais baixos do levantamento, e ainda assim lidera em quantidade de animais, com 4.929 bichos soltos, 38% do total do país.
O motivo é o camarão-canela (Macrobrachium acanthurus): três termos sergipanos somaram 4.404 deles, e um único lançamento devolveu 2.346 camarões de uma vez ao ambiente. Poucos casos grandes podem distorcer bastante o ranking por estado.
Camarão-canela e caranguejo-uçá são a maior fatia dos animais devolvidos à natureza
Os crustáceos formam o maior grupo entre os 12.820 animais soltos em 2025, com 7.591 indivíduos, 59,2% do total. O camarão-canela lidera, com 4.404 exemplares, quase todos em Sergipe, seguido do caranguejo-uçá (Ucides cordatus), com 2.399.
Depois deles vem o guaiamum (Cardisoma guanhumi), com 783. Os três são alvo comum de apreensão em época de defeso, quando a captura fica proibida para proteger a reprodução da espécie.
Passarinhos como canário-da-terra dominam a lista de espécies diferentes soltas
As aves respondem por 2.536 animais soltos em 2025, 19,8% do total, e são o grupo com mais espécies diferentes. São 87 espécies de ave nos termos do ano, entre eles espécies de gaiola tradicionais.
O canário-da-terra (Sicalis flaveola) é a espécie mais comum, com 822 indivíduos soltos, seguido do galo-da-campina, do coleirinho e do curió. São pássaros tradicionalmente mantidos em cativeiro, apesar de a captura ser crime ambiental.
Tartarugas-da-Amazônia lideram entre os répteis soltos pelo Ibama em 2025
Os répteis somam 1.448 animais soltos no ano, 11,3% do total, quase todos tartarugas do gênero Podocnemis. A tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa) é a mais numerosa, com 867 indivíduos devolvidos ao rio.
O tracajá (Podocnemis unifilis) vem em seguida, com 360 indivíduos. O Amazonas concentra boa parte dessas solturas, onde o Ibama participa todo ano de mutirões que devolvem milhares de filhotes às praias de desova do rio.
Por que aparecem tão poucos mamíferos nos termos de soltura do Ibama?
Os mamíferos somam só 24 indivíduos entre os 12.820 animais soltos em 2025, apenas 0,2% do total: tatu-peba, tatu-galinha, tatu-bola e um tamanduá-mirim. É o menor grupo de toda a base.
O número baixo de mamíferos não significa que poucos sejam apreendidos no Brasil. Animais como macacos e felinos costumam precisar de reabilitação mais longa num Cetas antes de qualquer soltura, o que atrasa ou impede o termo dentro do mesmo ano.
Como o Ibama decide se um animal apreendido pode voltar para a natureza
A soltura só acontece depois de uma avaliação das condições de saúde do animal e do local de destino. A norma que rege o procedimento exige habitat compatível e ausência de risco à população silvestre local.
Quando o animal não reúne condições de voltar sozinho, o caminho passa por um Centro de Triagem de Animais Silvestres, como aconteceu com a onça-pintada capturada em área urbana de Corumbá e depois solta na Serra do Amolar, no Pantanal, com colar de GPS.
Mais de 6% dos animais da base não têm a espécie identificada
Do total de indivíduos soltos em 2025, 814 (6,3%) aparecem na base oficial apenas como "não identificado", sem nome científico nem popular preenchido pelo Ibama no momento do registro.
Esse buraco nos dados impede saber a que grupo esses 814 animais pertencem. O Watts & Wild optou por mostrar o número em aberto, em vez de tentar adivinhar a espécie de cada um: é uma lacuna do próprio órgão, não um recorte editorial.
O que vem a seguir para a fiscalização de fauna silvestre no Brasil
Os números de 2025 servem de referência para comparar com 2026 assim que o ano fechar na base de dados abertos do Ibama, e para acompanhar se estados como Sergipe, Pará e Amazonas seguem concentrando as maiores solturas do país.
Você já flagrou um pássaro de gaiola, uma tartaruga ou outro bicho silvestre sendo solto de volta à natureza perto de onde mora? Conte nos comentários.
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